quarta-feira, 24 de agosto de 2011

LEDA E O CISNE NA POESIA


Leonardo da Vinci



Leda e o Cisne 
- Peter Paul Rubens
Holanda, 1577-1640
 

Leda e o Cisne,
de Paul Prosper Tillier, 1860

Decidi experimentar volúpia nova
E encarnar princesas mitológicas
Acolhendo as entidades pouco lógicas
Em que Zeus transfigurado punha à prova

A doce e embevecida prontidão
Em tê-lo entre as coxas bem no meio
Ou como chuva de ouro no meu seio
Mesmo que ensopasse meu colchão.

Assim comecei pelo meu cisne
Que ganhara de meu pai, enternecida
Por sua beleza branca enaltecida

Em que senti das plumas como seda
Emergir rubro arpão sem que me tisne
As pétalas e encantos, como Leda...


" V Cantos de Leda e o Cisne",
Selma Alves Rocha
Leda e o cisne
1º Canto

Suave se aproxima em branca plumagem
Cercando Leda no aquecer das penas,
Garboso, empina as asas, distende o carmim olhar
E toca-lhe a pele, com o bico, apenas...

Leda não se move, lânguida
na misteriosa sedução perene,
nem crendo, afasta os joelhos lentamente,
abrindo-se ao Cisne, infrene.

O abraço de asas em vigor é assalto
co'a força do bico na nuca, e presa
sob o peito robusto, o desejo lhe arrebata
no leque de penas que em Leda adentra ...

Imóvel em suas coxas orgasma o Cisne
Rasgando-lhe a gruta vezes eternas,
Estremece em plumagem, treme penugens
Quando Leda o envolve no abraço das pernas!


Leda e o cisne
2º Canto

Um Deus em mim!
Um Cisne em mim!
Esse ato louco
Farfalhando asas
No grunhido rouco...

Um Cisne em mim!
Um Deus em mim!
Nosso êxtase louco
a penugem sagrada
Estremece meu corpo...

Esse ato em mim!
O farfalhar em mim!
Um Cisne louco
Um Deus de asas...


Leda e o cisne
3º Canto

Ela repousa...a beleza adormece
Em meio aos cisnes do calmo lago
Ela repousa...eis a hora!
Nua na relva, no verde afago...

Tão bela...Eis Leda...a proibida
Que a outro pertence e lhe é só sua
Do Olimpo que Deus não a quereria?
Escravo do belo, me rendo....Zeus...

Em desejo me transporto...ei-la!
Desperta aos cisnes de branca plumagem
Seus dedos se estendem nas águas silentes
Seus joelhos se abrem...eterna miragem.

Me visto em penugens e meus braços de asas
Arriscam o vôo até a outra margem
Sacudindo as penas respingo-a inteira
A sentir seu perfume em cada gesto.

Uma carícia...seu afago...Eis a hora!
Leda minha, um Deus a quer
No peito estufado, nas asas turbadas
Nas coxas fêmeas macias...eis a mulher!

É a hora...não se move... Leda espera
A posse alada que já nos domina
Sua nuca mansa, no bico já presa
Faz rendição das pernas que me fascina!

Sobre Leda eis-me! Eis a hora!
Mesclado em desejos... Deus... Cisne!
Mergulho insano na intumescida fenda
Finco em mais sua gruta enquanto cisme!

Tremor, arrepios, gozo tenaz
Eis-me em Leda, é a hora!
Fecundo seu ventre na avidez mordaz
Possuída és, para sempre e agora!


Leda e o cisne
4º Canto
 

Coração já não é o meu
Nem de Zeus
Coração é Leda!!!

Corpo já não é o meu
Nem de Zeus
Corpo é de Leda!!!

*
Desejo já não é o meu
Nem de Zeus
Desejo é de Leda!!!

*
O êxtase
O gozo
O frêmito
A posse
Rendição nossa!!!


Leda e o cisne
5º Canto - Triunfo do Desejo

Nem o sagrado recinto
Dos Deuses, o Panteón

Nem a distância da Terra
Nas margens do lago protegida
Nem as aves, nem o bando
Imunes estão...

Basta um olhar!

E do olhar, o desejo
E do desejo o prazer
E que isto se faça e seja
Para matar ou morrer...
*
Transmutar-se, transformar-se
Ser outro ser e não ser
Metamorfosear-se de súbito
Para tudo acontecer...
*
Ao fundo, ao largo, no interno
Nada se confunde, dúvida não há
A vontade se avulta e arremessa
Ao delírio divino que será.

*
Nada imunes, portanto, eis o cuidado!
Ó mortais e deuses de todos os Tempos!
Sempre Leda existirá e um Deus
Se fará Cisne e dela se apossará
Em metamorfoses, sedentos!

 Imagens de Leda e o Cisne :
Leonardo da Vinci
- Peter Paul Rubens
Poemas:
de 
Paul Prosper Tillier, 1860
Selma Alves Rocha

2 comentários:

selma rocha disse...

Grata pela página tão sensível ao meu poema " V Cantos de Leda e o Cisne", que hoje fazem parte da 1a Antologia de Poetas Lusófonos/Leiria-Portugal.
Sempre haverá uma Leda e um Cisne que a quer, quando um Deus se manifesta.
A poesia é a arte de excitar as almas. Selma Rocha/Rio das Ostras/RJ

Radeir disse...

Mais que grata, felicíssima estou com a sua chegada, me esclarecendo a dúvida que tive na pressa ao postar. (Já corrigi)
Agora me confirma ser a autora deste belo audaz Poema "Os" Cinco Cantos de Leda e o Cisne" - {Os, sim)

Dá pra imaginar a volúpia do gozo em cada verso - é invejável a louca-lucidez a cantar e amando ser amada.

No 4* Canto a essência se revela!

O êxtase
O gozo
O frêmito
A posse
Rendição nossa!!!

Amei sua Bela Obra e agora, repito, mais que grata,nas nuvens,lembrando que os deuses estão espalhados e de vez em quando, um vem " gargalhar de gozo, dentro de nós!!!
Ai...como é bom!