quinta-feira, 21 de julho de 2011

POETA ANGOLANO EM LISBOA - EDUARDO PACHECO



Lugar aos Outros 91
Pacheco Eduardo

    MÚSICA

    Pacheco Eduardo chegou ao Estúdio Raposa por recomendação de um autor que já aqui ouvimos, José António Batista. Não sei se por descuido meu se por esquecimento do Pacheco Eduardo, nunca chegou ao Estúdio Raposa uma nota biográfica. Pelo que, sobre Pacheco Eduardo, nenhuma informação, o que não é caso único. Mas como sempre tenho dito, nada melhor para conhecer um autor, do que ler a sua obra.
    À laia de biografia vou ler um texto de Pacheco Eduardo que intitulou 360 graus e que de certa forma podemos considerar com uma nota biográfica.

    MÚSICA
    Atrevimento para esculpir vocábulos delicados, atrevimento para pintar fábulas vertiginosas calcadas por uma sólida crença de esperar por mim, retalhos que mordem as linhas tortas incertas por verdades que só Deus me pode revelar, ilustrações polvilhadas com pólvora verbal, episódios poéticos ainda que imperfeitos e descartáveis como uma verdade que amanha será outra coisa, fábulas paridas de uma inspiração febril e desobediente, fulgurante e impaciente...

    Enquanto espero…
    Não me falte nunca atrevimento e ousadia 
para cuspir palavras ásperas e incorrigíveis. 
Não me falte nunca um farol
para me manter bem acordado,
bem ancorado na realidade. 
Que não me falte nunca um poema 
na linha da frente do meu combate. 
Que não me falte nunca a tua ausência 
nem as partes íntimas 
de um pecado qualquer sem piri-piri.

    Nunca me faltem as noites 
em que empresto bocadinhos de mim 
ao exercício maternal de dar à luz 
360 graus de silêncio..

    Mesmo que um dia 
cometam o delito de chegar tarde 
ao meu enterro ainda me encontrarão em vida. 
Interminavelmente próspero!!

    MÚSICA

    Pacheco Eduardo 
não escreve poesia no seu formato habitual.
Porém escreve textos que, para mim,
são gritos de autêntica poesia.
    Vamos ouvir um texto que intitula 
“Hipérbole” e onde cabem uma “Nego”, 
um “Levem-me”, um “Rápido” e, 
finalmente um 
“Não nego que me levem...mas…”

    MÚSICA

    Apaguem as minhas impressões digitais
no corpo desta idosa meretriz
com a qual entretenho a insónia 
nas noites em que nego a aceitação 
de mais uma negação. 
Arranquem-me das mãos o papel e a caneta 
e as emoções e eu calar-me-ei. 
Prendam-me a língua 
e as cordas vocais e as veias e os lábios 
e os dentes para não trincar nem mais uma palavra.
Assaltem-me a inocência. 
Prendam-me que não sei o que falo.

    Nego...

    Nego o teu castelo 
com arame farpado à volta das muralhas
para que depois do arrepio 
mais ninguém se atreva a te fazer salivar os olhos. 
Amarrem-me ao amor
e soltem os vossos beijos 
e saltem e sintam como sou frágil 
como uma rocha pois cansei-me 
de te lançar disparates agora simplesmente 
pretendo disparar um beijo à distância 
tendo como alvo a tua boca.
Falem-me que não sei
o que prendo no coração que nego.
Levem daqui o papel e a caneta
que eu me calo. 
Calem-me as mãos e os dedos 
que ainda assim vou gritar 
que não quero acabar aqui. 
Que não estou fora do prazo de validade 
para me amares aqui. 
Que aqui o olhar é negro 
quando o adeus marca a hora que nego.

    Levem-me...

    Prendam-me
que não sei quem me ama. 
Beijem-me.
Arranquem-me daqui. 
Nego quebrar outra vez o espelho
em estilhaços mil de ternura. 
Chorem-me com gargalhadas 
de entusiasmo se me quiserem acordar. 
Chorem-me às escondidas.
Entre quatro paredes. 
Quando mais ninguém existir
ao teu redor além de ti e do teu travesseiro. 
Quando não mais precisares de sorrir 
apenas para fazer ginástica facial. 
Ressuscitem-me.
Não tenho por quem esperar. 
Espero por mim. 
Ninguém vai bater à porta. 
Batam a porta em mim. 
Irei abrir mesmo sem nada 
para dar em troca ao silêncio. 
Deixem-me entrar ao menos para procurar
o juízo que perdi nas reticências 
da tua loucura.

    Para te salvar dos lapsos da minha memória
e do tal romance que atirámos pela janela 
connosco lá dentro trajados de amantes à paisana.
Negro o teu semblante dinamitado 
com algodão doce. 
As palavras que lanço 
no fundo negro desta página. 
Nego a lâmpada fundida 
das mentiras de ontem visíveis
na verdade de hoje.

    Rápido...

    Prendam-me 
que não sei quem amo. Prendam-me. 
Virei a página mas o livro é o mesmo.
Mudei o amor que não o lugar do coração.
Prendam-me cá fora. 
Não quero acabar dentro 
sem engolir por fora a revelação do que fui. 
Tranquiliza-te mesmo que não compreendas 
por que razão deixei as minhas impressões
digitais na tua língua. 
Ninguém me vai bater à porta. 
Ninguém vai perguntar
a data de nascimento da tua solidão. 
O número de identificação dos teus sonhos.
A matrícula de teu passado. 
O nome completo do teu coração. 
O estado civil dos tendões 
do teu pensamento. 
Ninguém vai.
Enquanto me entreter a fazer festinhas
ao tempo à paulada. 
Porque o tempo que engoliste 
sem saborear as horas e os minutos 
e os segundos mais ninguém vai usá-lo. 
Nem para pano de limpar o chão.

    Não nego que me levem... Mas...

    Prendam-me
que não sei quem me chama. 
Amarrem-me ao amor e soltem aplausos. 
Soltem cânticos de esperança.
Da maresia das falésias.
Dos murmúrios dos rios.
Do aroma das frutas que desfrutas.
Das florestas e bosques
onde há pássaros soltos em voos 
de nunca mais voltar pois há febre 
nas palavras mas é liberdade 
este amarrar de vida com cordas vocais. 
Mesmo que não concordes comigo. 
É livre este amar de não saber.

    MÚSICA
    INDICATIVO

    Por motivos insignificantes que não vale a pena referir, o Lugar aos Outros fez gazeta desde que programa foi dedicado ao 3º aniversário de Estúdio Raposa. Hoje, ele regressa com o trabalho de Pacheco Eduardo.
    Ouvimos no Lugar aos Outros de hoje, textos de Pacheco Eduardo.
    Até ao próximo programa onde vamos escutar trabalhos de Luís Mendes.


Fonte
Estúdio Raposa
 http://www.truca.pt/raposa_textos/lugar_91_pacheco_eduardo.html

Um comentário:

Radeir disse...

A gentil resposta do Poeta Angolano em Lisboa - Eduardo Pacheco:

Prezado amigo,

que surpresa boa é essa‼ sinceramente não estava à espera, confesso para mim é um honra saber que pessoas tão inteligentes e com tamanha sensibilidade reconhecem algum valor poético ao que humildemente transporto para o papel.

Perante a tua surpresa só tenho a agradecer-te pela oportunidade!

Que a poesia esteja contigo!

Um forte abraço escrito!

Heduardo Kiesse