sábado, 21 de julho de 2012

PINTURA e IMAGINAÇÃO ATIVA : CONCEITOS DE C.G.JUNG




Imagens: Guido Boletti
PINTURA
Na análise ou auto-análise, o registro de imagens internas em forma visual. As imagens podem derivar de SONHOS, IMAGINAÇÃO ATIVA, VISÕES ou outra forma de FANTASIA.

Em fins do século XIX, na Europa Central, surgiu um interesse pelas pinturas dos doentes mentais; sem dúvida, Jung estava ciente deste fato. Nos primórdios de sua carreira, começou ele próprio a pintar ou esculpir e continuou a atividade por toda a sua vida.Também encorajava seus pacientes a pintar e interpretou as pinturas em alguns de seus artigos (ver, sobretudo,A Study in the Process of Individuation”, CW 9i; “The Philosophical Tree”, CW 13). Um arquivo de pinturas de analisandos é mantido no Instituto C. G. Jung, Zurique.

Os comentários de Jung sobre o valor psicológico de uma tal pintura punham ênfase tanto no processo como no produto. A pintura é mediadora entre o paciente e seu problema. Com a produção de uma pintura, uma pessoa ganha alguma distância de sua condição psíquica. Isso porque, para o paciente perturbado, quer seja neurótico quer psicótico, um caos incompreensível e incontrolável é objetivado através da pintura.

Freqüentemente, uma diferenciação entre a pessoa e sua pintura pode ser considerada como o início de uma independência psicológica. Enquanto retratando uma fantasia, continua-se imaginando-a de forma sempre mais completa e com detalhes cada vez maiores. Neste caso, não se representa a própria visão ou o próprio sonho, mas se está pintando a partir dessa visão ou desse sonho; daí, a PSIQUE consciente tem oportunidade de interagir com o que irrompeu inconscientemente (ver FUNÇÃO TRANSCENDENTE; INCONSCIENTE).

A abordagem inicial da pintura é o oposto daquela da imaginação ativa. O indivíduo não se esforça por descobrir ou liberar conteúdos inconsciententes, mas participar deles na obtenção de uma expressão plena e consciente. Jung adverte que, quanto menos material inicial, maior é o perigo de que os dados sejam considerados como resolvidos demasiadamente cedo ou os julgamentos sejam formulados em termos morais, intelectuais ou diagnósticos.

Deve-se ter grande cuidado ao lidar com pinturas e sua INTERPRETAÇÃO, tanto da parte do pintor como do analista. Jung agia de forma coerente com o ponto de vista de que a pintura era propriedade do paciente (como o sonho) e o relacionamento primário a ser promovido era entre o próprio pintor e sua interpretação imaginativa das figuras retratadas.

Adeptos de Jung usaram a pintura como um meio de encorajar a liberação do AFETO reprimido, lado a lado, ou inclusive, com as finalidades diagnósticas. Séries de pintiras muitas vezes podem ser vistas como tendo um desenvolvimento seqüencial ou narrativo expressivo de uma condição psicológica em transformação.
Ver MANDALA.

IMAGINAÇÃO ATIVA

Jung usou o termo em 1935 para descrever o processo de sonhar com olhos abertos (CW 6, parág. 723n). De saída, o indivíduo concentra-se em um ponto específico, uma disposição, quadro ou eventos específicos; em seguida, permite que uma cadeia de FANTASIAS associadas se desenvolvam e gradativamente assumam um caráter dramático. Depois as imagens ganham vida própria e desenvolvem-se de acordo com uma lógica própria. A dúvida consciente deve ser superada e conseqüentemente que haja permissão para que qualquer coisa incida na consciência.

Psicologicamente, isso cria uma nova situação. Conteúdos anteriormente isolados tornam-se mais ou menos claros e articulados. Uma vez suscitado o sentimento, o EGO consciente é estimulado para reagir mais imediata e diretamente que no caso verificado com os SONHOS. Por esse meio, Jung percebia que a maturação era acelerada em virtude das imagens que se apresentam na imaginação ativa anteciparem os sonhos.

Deve-se contrastar uma imaginação ativa com o devaneio, que é mais ou menos parte da própria intervenção do indivíduo e se mantém na superfície da experiência pessoal e cotidiana. A imaginação ativa é o oposto de invenção consciente. O drama que é encenado parece “querer compelir à participação do observador. Uma nova situação é criada e nela os conteúdos INCONSCIENTES surgem no estado de vigília” (CW 14, parág. 706). Jung encontrava nisso uma evidência da FUNÇÃO TRANSCENDENTE operando; isto é, uma colaboração entre fatores conscientes e inconscientes.

Pode-se escolher um modo de lidar, dentre vários, com aquilo que se torna manifesto. O processo da imaginação ativa pode, ele próprio, ter um efeito positivo e vitalizante, porém o conteúdo (como de um sonho) também pode ser pintado (ver PINTURA). Os pacientes podem ser motivados a anotar suas fantasias a fim de fixar a seqüência em que ocorreram e tais registros podem, subseqüentemente, ser levados à ANÁLISE para a INTERPRETAÇÃO.

Jung, contudo, sustentava que a IMAGEM de fantasia tem tudo de que necessita para seu desenvolvimento e transformação subseqüentes na vida psíquica. Enquanto imaginando ativamente, advertia contra se ter um contato exterior, comparando isso com o processo alquímico e sua necessidade de um “recipiente hermeticamente vedado” (ver ALQUIMIA). Não recomendava que imaginação ativa fosse usada indiscriminadamente ou por qualquer um, achando-a mais útil nos últimos estágios da análise, quando a objetivação das imagens pode substituir os sonhos.

Tais fantasias solicitam a cooperação da vida consciente. A imaginação ativa pode estimular a cura de uma NEUROSE, porém só consegue êxito se está integrada e não se torna ou um substituto das tarefas do viver consciente ou uma fuga delas. Em contraste com os sonhos, que são experimentados passivamente, esse processo da imaginação requer a participação ativa e criativa do EGO (ver Weaver, 1964; Watkins, 1976; Jaffé, 1979).

Esse método de elevar à consciência aqueles conteúdos que jazem imediatamente abaixo do limiar do inconsciente não está destituído de seus riscos psicológicos (ver ABAISSEMENT DU NIVEAU MENTAL). Entre esses, Jung focalizava principalmente três: (1) que esse processo pode se mostrar estéril caso o paciente permaneça preso no círculo de seus próprios complexos; (2) que o paciente fica iludido com o aparecimento das fantasias e ignora a exigência destas para um confronto; e (3) que os conteúdos inconscientes possuem um nível de ENERGIA de tal modo alto que, quando conseguem uma saída, tomam posse da personalidade (ver INFLAÇÃO; POSSESSÃO).


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Pablo Picasso

Li-Sol-30
Lição da Luz
 Fonte:
http://www.rubedo.psc.br/dicjung/verbetes/pintura.htm
 

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